sábado, 18 de julho de 2009

Areia da grossa, areia da fina (Vicência Jaguaribe)

Esconde-esconde

Me escondo
atrás da porta,
atrás do armário,
no fundo do poço,
dentro do espelho,
na curva do rio,
no meio do vento,
dentro de mim.


(Roseana Murray)


- Areia da grossa, areia da fina, areia me faça ficar pequenina!
Ela fechava os olhos bem fechados, mas bem fechados mesmo, de verdade, e repetia a fórmula mágica três vezes. Abria os olhos e... não acontecia nada. Lá estava ela, do mesmo tamanho de sempre, do mesmo jeito. Era magricela e tinha braços e pernas tão finos, mas tão finos que o Leôncio... Ah! esperem, ainda não falei do Leôncio pra vocês, não foi?
O Leôncio era um doidinho que ia muito à casa dela. Ele dizia umas coisas muito engraçadas, tipo uma resposta que deu para a mãe dela, quando esta lhe perguntou se estava bonita. Sabem qual a resposta que ele deu? Tá bonita, tá! Tá todinha uma lata de doce.
Pois bem, ela tinha umas pernas tão finas, tão fininhas mesmo, que o Leôncio se dirigia a ela dizendo galça ou pernas de galça. Era assim que ele pronunciava garça, o nome daquela... espera um pouco... vou dar esta informação lá no fim da página, assim, só lê quem quiser. Não é melhor?
E os cabelos dela? Eram castanho-claros e volumosos, arrumados em duas grossas tranças. Pensa que ela gostava do jeito dela, isto é, do próprio jeito – dos cabelos, dos olhos, do nariz, da boca, do corpo? Nana, nina, não. Não mesmo. Até das orelhas, que não tinham nada de diferente das orelhas das outras pessoas, ela não gostava.E tinha também uma história de sentir vergonha de tudo. Tinha vergonha de ser mais alta do que as amigas da mesma idade, tinha vergonha de falar, tinha vergonha de comer, tinha vergonha de estar crescendo, tinha vergonha... escutem bem... o que era pior é que tinha vergonha de sentir vergonha.
§ Garça é ó nome daquela ave grande, que anda em bando, nos rios, nos lagos, nos charcos e nas praias marítimas. Alimenta-se de peixes. Ela tem pernas muito compridas e fininhas, e penas muito bonitas e branquinhas. Quando eu era criança e morava no interior, as penas das garças eram usadas... Sabem para quê? Para fazer as asas que complementavam a roupa de anjo usada pelas crianças nas festas da Igreja.
O ritual areia da grossa, areia da fina, ela – já está passando da hora de dizer o nome dela, não? era Cristina – ela, a Cristina, punha em prática sempre que ouvia certas conversas dos adultos da família.
Que conversas eram essas? Eles diziam entre si – mas ela ouvia sempre – que a Cristina estava muito grande, quase uma mocinha, que logo, logo ia ter que usar sutiã. Já, já, arranjaria namorado e... o pior, meu Deus! Ela não queria nem ter escutado... iria estudar na capital.
Aí, não havia conversa, o encantamento areia da grossa, areia da fina teria que funcionar. Ela já não queria crescer – era um Peter Pan recolhido – e agora, que ficara sabendo das horríveis consequências do crescimento, pior!
(Aqui pra nós, e não contem a ninguém, a Cristina era, na realidade, uma menina medrosa – covarde mesmo. Ela tinha o maior medo de enfrentar o desconhecido e o novo. Essas coisas que o crescimento traz e que todo mundo tem de encarar.)
Naquela noite, a Cristina foi dormir mais cedo. Queria acordar de madrugada para pronunciar as palavras mágicas no silêncio e no sossego da escuridão. Levantou-se meio sonolenta, abriu a porta do guarda-roupa, que tinha um grande espelho, e tentou concentrar-se. Mas, diga se ela conseguiu. Que nada! Fez foi se lembrar da Alice. Aquela, de Alice no país das maravilhas, se lembram?
Desde que lera aquele livro, a Cristina passou a achar que, diante de um espelho, tudo poderia acontecer. Antes mesmo de ler esse livro, já achava espelho um objeto especial e confiável – daqueles que só dizem a verdade. É só pensar no espelho da madrasta da Branca de Neve, para ver como é verdade.
Olhou o relógio, que marcava cinco horas. Fechou os olhos bem fechados e disse três vezes a fórmula mágica:



Areia da grossa, areia da fina, areia me faça ficar pequenina!
Areia da grossa, areia da fina, areia me faça ficar pequenina!
Areia da grossa, areia da fina, areia me faça ficar pequenina!



E disse com tanta fé e com tamanha vontade que o encantamento desse certo que o coração acelerou. Mas acelerou tanto que ela ficou meio tonta e teve de segurar-se na porta do guarda-roupa. Conservava ainda os olhos bem fechados.
Quando abriu os olhos, viu-se em uma rua movimentada. E estava minúscula, tão pequena que foi empurrada por uma rajada de vento. E nem era um vento tão forte! Teve que segurar-se no galho de um pé de boa-noite, para não cair em uma boca-de-lobo. Uma aranha, que fabricava sua teia ali por perto, quis saboreá-la. E, se não fosse a agilidade e a prontidão do raciocínio da menina, teria conseguido. Mais adiante, quase foi atropelada pelo pé de um quase bebê de dois anos. Minha Nossa Senhora! Quanto perigo em tão pouco tempo! Raciocinou rapidamente e concluiu que não poderia ficar exposta ao vento, aos insetos e aos pés dos homens. Subiu na calota de um carro parado e ficou bem escondidinha.
Sentiu um vazio no estômago... fome... e agora? Do tamanho em que estava, onde poderia pegar comida? E estava em frente a um café. Saiu do esconderijo e aproximou-se da porta. Mas, com as suas perninhas curtas, e bote curtas nisso, não conseguiu escalar o batente.
Viu, então, perto da porta, uma senhora que olhava para dentro do estabelecimento, antes de entrar. A Cristina, que esperava uma oportunidade, que fez? Agarrou-se na barra da saia comprida da senhora e assim entrou no café e assim saiu. Comeu, sem nenhuma vergonha, as migalhas que as pessoas deixavam cair.
Na rua novamente, agora com cuidado, mas sem medo, procurou um lugar onde pudesse fazer xixi. Começou a perceber que tinha sido uma grande bobagem dizer aquelas palavras mágicas. O que fazer para reverter o processo, para voltar ao tamanho de antes? Pensou... pensou... pensou muito, até sentir a cabeça vazia de pensamentos. Mas encontrou a solução. E disse baixinho, três vezes, de olhos bem fechados, a seguinte fórmula:



Aiera ad assorg, aiera ad anif, aiera em açaf racif anineuqep!
Aiera ad assorg, aiera ad anif, aiera em açaf racif anineuqep!
Aiera ad assorg, aiera ad anif, aiera em açaf racif anineuqep!



Sentiu uma forte dor misturada com ardor. A força que fizera na porta do guarda-roupa, para não cair, machucara-lhe a mão. Estava muito cansada. Antes de deitar-se, olhou as horas. Tinha aula. Meu Deus! Perdera a hora! 10h20min. Não pensou em mais nada e adormeceu.
Acordou com a fala da mãe. Levante depressa, está quase na hora da aula. Que foi que aconteceu com seu relógio? Está marcando 10h20min. Ah! está parado. Vou trocar as pilhas. Levante, já são quinze para as sete.
Cristina não estava entendendo nada. Sonhara? Não, não fora um sonho. Abriu a mão direita, que se conservava fechada, e viu umas folhinhas de boa-noite. Olhou a outra mão, e ela estava vermelha e meio inchada de tanto apertar a porta do guarda-roupa. Olhou o relógio e viu que ele adiantara três horas.
Enquanto se arrumava, foi organizando as ideias. Acho que passei umas horas em um mundo à parte. Como se diz? Numa... dimensão... dimensão paralela. Isso mesmo, dimensão paralela. Já li isso em algum lugar. Eu vivi mesmo, não foi sonho. Será que devo ficar calada? Se falar, vão dizer que estou ficando doida, vão sim. Ela soltou as tranças, passou a escova nos cabelos castanhos e cheios, e prendeu-os num rabo-de-cavalo. Gostou do efeito. Pela primeira vez na vida, não se achou muito magra nem muito desajeitada. O penteado deixara as orelhas à mostra. E elas não eram tão feias.
Apanhou os livros em cima da escrivaninha e foi tomar café. Resolvera – falaria a todo mundo sobre a viagem que fizera. Não se importaria com o que dissessem. Aquela rua onde estivera lhe metera medo, mas ela se safara. Fora tudo mais difícil por causa do seu tamanho. Se estivesse em sua altura normal, ela teria enfrentado bem o desconhecido.
É! – pensou a Cristina – a gente tem de crescer na hora certa. Por dentro e por fora. Já ouvi muito adulto dizer isso. E mais – quem cresce só de um lado fica aleijado, fracassado, prejudicado e muitos outros ados. Crescer por dentro... o que será isso? Acho que é... deixar de ter medo e vergonha? Talvez não deixar de ter totalmente, mas enfrentá-los. Porque há medo e vergonha para toda idade, e em cada idade a gente vence só uma parte. Só aquilo que a gente pode.


Vicência Maria Freitas Jaguaribe


Natural de Jaguaruana-Ce

Professora de Literatura e Estilística da Universidade Estadual do Ceará

Mestra em Literatura pela UFC

Trabalhos publicados nas áreas de Literatura, Estilística e Lingüística do Texto

E-mail: vmjaguaribe@netbandalarga.com.br

5 comentários:

  1. Mônica Cavalcante19 de julho de 2009 06:22

    Os contos da Vicência são muito bons: uma escrita fluente, gostosa, natural e com uma dose certa de humor. Gostaria que ela publicasse.

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  2. Concordo com a Mônica. A Vicência tem um estilo gostoso, um texto fluente e divertido que torna leitura prazerosa. Essa "conversa" sobre a história, que ela vem desenvolvendo mais explicitamente nos contos infantis, é uma marca de estilo que funciona para "segurar" o leitor.
    Sou fã dos contos e das crônicas da autora. Não vejo a hora de ela publicar essas preciosidades.

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  3. Ozani disse...
    Ao ler o conto da Vicência reportei-me a minha infância... e como é gostoso voltar no tempo e lembrar o que ficou guardado na memória...a forma como ela conta sua história nos leva a um imaginário fantástico...adoro seus "escritos"...sempre me deleito ao lê-los. Obrigada por nos dar esse prazer.

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  4. Eu li esse livro quando eu fazia a 3 série do ensino fundamental,até hoje esta guardado em minha mente depois de 11 anos. Sinto falta,adorei esse livro.

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